Comerciantes são alvos de listas que incentivam boicote em cidades do RJ após resultado das eleições
28/10/2026
(Foto: Reprodução) Campanha de boicote a comerciantes gera repercussão em Teresópolis
Comerciantes e profissionais de Teresópolis, na Região Serrana do Rio, têm sido alvos de publicações em redes sociais e grupos de mensagens que identificam estabelecimentos supostamente ligados a apoiadores do Partido dos Trabalhadores (PT) e incentivam consumidores a não comprar nesses locais.
A repercussão levou o caso à Câmara de Vereadores e motivou uma representação apresentada ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e ao Ministério Público do Trabalho (MPT).
Além de Teresópolis, a representação cita registros semelhantes em Petrópolis, Três Rios e Cachoeiras de Macacu. Entre os exemplos mencionados estão grupos e publicações intitulados “Estabelecimentos Petista em Três Rios” e “Cachoeiras Consciente (não compre de petista)”.
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Lista no WhatsApp tem boicote a empresas e prestadores de serviço por suposto apoio à esquerda
Reprodução
As listas são acompanhadas de mensagens que incentivam o boicote econômico a comerciantes e profissionais associados a determinado posicionamento político. Entre as expressões identificadas está “Não compre de petista”, utilizada em publicações que expõem nomes de estabelecimentos e seus proprietários.
A representação foi apresentada pelo deputado estadual Yuri Moura e solicita a apuração de possíveis práticas de perseguição e discriminação político-partidária. O documento pede a investigação da origem e da autoria das publicações, além de possíveis ameaças, constrangimentos, discriminação e uso irregular de dados pessoais.
A divulgação das listas levantou questionamentos sobre os limites da manifestação política, o direito à liberdade de opinião e os possíveis prejuízos econômicos e profissionais para as pessoas identificadas.
A profissional de Educação Física, Letícia Botelho, de 28 anos, está entre as pessoas citadas na lista divulgada em Cachoeiras de Macacu. Em uma das mensagens, um integrante a classificou como "petista" e afirmou ter deixado de frequentar suas aulas por esse motivo.
Ela informou que pretende ingressar com uma ação judicial contra os responsáveis pela mobilização.
"Isso é crime de incitação ao ódio e não pode ficar assim. Eu não estou com medo de perder os alunos que eu já tenho, porque eles sabem da minha essência, mas eu posso deixar de ganhar novos alunos e esse dano é irreversível", destacou.
A profissional informou que pretende ingressar com uma ação judicial contra os responsáveis pela mobilização.
Redes sociais
O episódio ocorre em meio à polarização política após as eleições de 2026. Em Teresópolis, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 62,80% dos votos válidos no primeiro turno e ampliou o percentual no segundo turno. Nesse contexto, a circulação das listas passou a preocupar comerciantes que temem ser prejudicados por posicionamentos políticos atribuídos a eles.
Na representação encaminhada ao MPRJ e ao MPT, Yuri Moura também cita a possibilidade de encaminhamento de informações à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), caso sejam encontrados elementos que justifiquem a atuação dos órgãos.
A representação ressalta que o pedido de investigação não significa que as irregularidades apontadas tenham sido comprovadas. Caberá aos órgãos competentes analisar os registros e apurar eventuais responsabilidades.
Órgãos se manifestaram
A repercussão levou diferentes instituições a se manifestarem. A Prefeitura de Teresópolis, a Câmara de Vereadores e o Sindicato do Comércio Varejista de Teresópolis (Sincomércio) repudiaram as práticas denunciadas.
Durante a discussão na Câmara, vereadores apontaram preocupação com possíveis impactos sobre a liberdade de opinião, a atividade comercial e a convivência democrática.
O Partido dos Trabalhadores orientou pessoas que tenham sido ameaçadas ou coagidas a registrar ocorrência policial. Já o Partido Liberal (PL) informou que estava apurando a situação e que não se manifestaria sobre o caso.
Mais de 400 denúncias no país
Procurado pelo g1, o Ministério Público do Trabalho informou ter recebido mais de 400 denúncias relacionadas a situações semelhantes em todo o país. Segundo o órgão, todas as denúncias serão investigadas. O MPT também disponibiliza um canal para registro de ocorrências em seu site oficial.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro também foi procurado para comentar o caso e informar se havia alguma providência em andamento, mas não havia respondido até a última atualização desta reportagem.
A apuração busca esclarecer a origem das listas, a eventual participação de responsáveis pela divulgação e a existência de ameaças, constrangimentos ou outras condutas que possam gerar responsabilização.
A repercussão levou o caso à Câmara de Vereadores e motivou uma representação apresentada ao MPRJ e ao MPT.
Câmara de Teresópolis